terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A tristeza de um ex bate-bola




Acordei na terça-feira gorda, com o silêncio sepulcral do dia primeiro de ano novo, acho bom essa calmaria mas penso na mudança do comportamento da sociedade, na verdade estou mesmo em um cemitério, a tradição cultural do meu bairro está morta e enterrada para sempre. Sim, aqui por volta da década de noventa tinha ruas extremamente cheias de bate-bolas, grupos fantasiados que saiam pelas ruas como verdadeiros blocos carnavalescos. Praças tinham festas, gincanas, apresentações, do lado da minha casa mesmo tinha um. É esses bate-bolas (como eu que fui um) cresceram, se tornaram velhos, viraram pessoas estressadas, tiveram filhos, os pais desses bate-bolas que faziam as festas para seus filhos, ficaram velhos também, e era para seus filhos fazerem o mesmo com seus netos, continuarem a tradição. Mas não! É melhor odiar o carnaval (mesmo que eles tenham desfrutado da magia de ser um bate-bola) e levar seus filhos para algum lugar ao inverso (fugir do carnaval), ou adorar o carnaval e levar eles ao centro da cidade para ver um outro carnaval, mas nunca o mesmo que eles viveram.

 Nunca gostei do carnaval do centro, gostava do que existia no meu bairro, com máscaras feitas de telinha com cabelo colorido, bexiga de borracha batendo no chão, os pai joão (um tipo de bate-bola para quem não podia comprar fantasia) e ainda tinha os bate-bolas de sombrinha, esses eram mais velhos (deviam ter uns vinte e poucos anos), com esses ninguém mexia, usavam uma roupa trabalhada e luxuosa, tinham classe, e eram letais (guardavam consigo uma meia com uma laranja dentro, coitado de quem ousa-se enfrentá-lo). Era divertido e tenso ser bate-bola, era andar em grupo e ter batalhas campais quando encontrava-se com outro grupo ou uma junção de turmas.

 Ninguém ali sabia sambar, ou queria dançar carnaval, queríamos apenas ser monstros e sair pela rua fazendo as meninas gritarem de medo (porque ser bate-bola, era coisa de menino). Além do temido bate-bola de sombrinha tinha algo mais terrível que ele, que nem o de sombrinha podia se meter, eram os homens travestidos de mulheres, esses vinham e corriam para o grupo de bate-bolas, que os tratavam como mulheres, pois não batiam neles, mas tinha que correr, desesperadamente, e nunca olhar para trás se um do grupo fosse agarrado! Se o bate-bola fosse apanhado, então sua natureza de monstro era desfeita, pois sua máscara era arrancada e por vezes até a fantasia. O travestido era o único que tinha o poder de desfazer o poder de qualquer bate-bola. Essas eram nossas Raids (grupos) e esses eram nossos mestres de fase. Mas nada disso voltará a existir, hoje a tradição está morta.

(Texto de Daniel MM)

2 comentários:

  1. Infelizmente nós cariocas temos o péssimo costume de destruir certas tradições,principalmente os suburbanos.Chato.
    Sinto muita falta dos bate-bolas e seus cheiros peculiares e toda o cenário q se criava em volta.Tempo bom q seria interessante resgatá-lo.

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    1. Artur obrigado por comentar.

      Infelizmente essa tradição em toda parte morreu mesmo, mas muito se deve ao problema com violência e trafico que começaram a usar esses meios para propagar seus furtos e contrabandos, isso foi um golpe de misericórdia na nossa tradição de bate-bolas.

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