segunda-feira, 25 de maio de 2015

Anatomia Poética (Entre-Vista / entre-Versos) - Matheus José Mineiro



Isso não é uma piada, nem mesmo uma brincadeira, mas também é, e também não é uma entrevista mega-séria, apesar da profundidade das respostas do amigo-poeta, isso é poesia, pessoas, mudo, giro. Resolvi esse mês pegar pesado, e deixar de lado esse poetas que se acham qualquer coisa por terem um verbete feito na Wikipedia(*) feito nas cochas e colocar um poeta realmente relevante, com versos e poemas  reais e também relevante na minha jornada. Seja bem vindo Matheus José Mineiro, que carinhosamente o chamo de Minérico.


Quando e como começou a escrever?
Então pessoal, sou nascido e criado na Zona da Mata, as margens do Rio Piranga em Ponte Nova, sempre estudei em colégio publico, quando adolescente comecei na onda do Rock and roll e do punk e culminou naquelas noitadas, ficar mais na rua, ir pra Praça de Palmeiras, e essa galera, meados de 2000, era tipo os nonsense rural, ligada em desenho, literatura, cultura mineira, metal, punk rock, além de curtições. Daí passei a escutar certos assuntos de livros ,comecei a gravar tudo, também comecei a não mais dar atenção ao resumo do livro e sim a observar mais os livros da aula de Literatura (coleção Vagalume), recordo da Droga da Obediência de Pedro Bandeira, com a mística professora Heloisa. Ia lendo aquilo que estava ao alcança da biblioteca da cidade e da câmara da cidade, fiz meu cadastro nestas bibliotecas e fui pegando os clássicos, eu escutava na roda os títulos e memorizava os nomes bacanas, Os Sertões, Infância, Olhai os Lírios do Campo. Uma vez entrei num destes quartos onde só tem coisa velha de família, achei uma caixa de livros, tinha as Nuvens de Aristófanes e uma Barsa que falava da vida de gente famosa em qualquer área, lia os autores(as) que tinham nomes e títulos bacanas, rs, e corria pra Biblioteca. Lembro que meu tio Zezé me deu uma autoajuda pra ler, rs, Quem Mexeu no Meu Queijo, pra mim era literatura mineira, mas, só que não. O mundo da literatura é uma fotossíntese, a gente passa pela semente, pela adubação, brotação e continua absorvendo e extraindo. E foi com esta rotação de leitura e curiosidade, lia jornal, lia revista, em meados de 2000, 2011, em diante, tinha 13 anos, recordo destes dias , quando penso na função da linguagem literária infanto-juvenil, quais níveis de recepção ela pode alcançar e proporcionar a esta faixa etária de turbilhões. Li Drummond e Euclides da Cunha e eu não dormia, lembro que lia Cruz e Souza eu suava. Sobre a escrita, do começar a escrever foi nas redações de escola, lá eu passei a exercitar isso, lembro que uma redação minha foi escolhida pra participar de um concurso ambiental da Fabrica de Papel, eu descrevia o rio, que corta nossa cidade; o Piranga, como se os esgotos, dejetos, fossem facadas na barriga do rio (cheio de abstrações) aí me encaminharam pra secretaria da escola,( raro porque só me dirigia até lá por motivo de bagunça em sala de aula) desta vez foi pra vice diretora conversar comigo sobre aquela redação, perguntou se era meu mesmo que havia escrito, porque era uma conteúdo acima da média e tal e tal, rs . Escrevi um poema nestes meados de 2000, 2001, 2002, 2003, rs, era mais leitura a minha pegada, lendo as ditas escolas literárias, do Parnaso á Práxis, absorvendo e me instigando né. Lembro que o poema escrito continha versos expressivos da questão regional de Minas, do ouro, extração, ferro, cana... Depois de tanta instiga, quando saí de Minas 2007, para viajar só com uma mochila, trombando outros poetas, coletivos e manifestações linguísticas que, aquilo tudo que li e lia, entrou em erupção. Lembro que eu viajava em estado de rua mesmo, beat hippie rural, com um dicionário Aurélio, rs, ficava lendo ele a noite, e no meio ali da aventura e perrengues eu passava pelas bibliotecas seguia pra estante de poesia, aleatoriamente ia pegando e sentando ali mesmo e lendo. Instiga, creio ser o verbo correto pra desenha a palavra Literatura, passei escrever, tipo a represa da Brecha aqui no Vale do Piranga quando transborda.


O que te inspira?
Wallace Stevens certa vez ressaltou um trem relevante que matuta minha cabeça:
‘’ A poesia não é uma atividade literária, e sim vital. ’’, entrando ao pé da letra o que seria vital, partindo daquilo que rodeia o ser humano, alias, um ser humano nascido no interior, com costumes e tradições ancestrais, numa geografia especifica, costumes específicos, linguagens e texturas diferentes, não digo inspiração, mas sim uma instiga, de querer usar aquilo que a raça humana vem buscando e renovando deste as escrituras rupestres á linguagem virtual. A palavra poema vem de um verbo latim que designa ação, movimento, verbo fazer. É a oportunidade que as coisas nos dão pra vê-las de diversas formas e poder descrevê-las. Uma alquimia, um mantra. Hoje tenho buscado aliar experiências mística, cotidianas, toscas, rurais a figura de sintaxe. Se eu escrevo rio, a palavra já existe ali, mas se eu crio imagens e símbolos que te sugerem, te arremessem a partícula rio, a literatura festeja. A pouco estive lendo Herberto Helder  , num dos poemas ele diz ‘’ escrever poemas não é apenas vou ali e já volto’’, daí vale aquela máxima do Einstein’’10% de inspiração e 90% de transpiração’’ fico com a afixo  piração.

E como é o processo criativo, tem uma formula?
Então, na medida em que vou lendo certos escritores e escolas literárias e certos artigos deparo com a irrespondível pergunta, Pra que serve poesia? Será que é utilidade das coisas inúteis? Um poema vale mais que um iPod? Respiro e penso nos povos ancestrais que se desdobravam na busca de formas e ferramentas as quais eles pudessem se comunicar, nos gregos, romanos, ibéricos, cancioneiros portugueses que buscavam aprimorar imagens a fala e a escrita (ritmo , impacto e fonética) para transmitirem ideias e noticias e músicas. As escrituras litúrgicas, do banto, oriental, cristão, católica, que buscavam figuras de linguagens para entoarem seus canto poemas e hinários; creio que existem sim várias formulas, que são criadas pelo próprio autor. Vemos as formas fixas, como o Rubai persa, o haicai, a metasextina, o soneto, a oitava rima, onde vemos que a escanção das sílabas, o som e entonação de cada sílaba é um exercício tal qual de um marceneiro ciente das maleabilidades de cada espécie de madeira, da intimidade do ferreiro com o calor e o ferro. Ou seja, o poema é uma matéria prima, não é que ele tenha obrigatoriedades, mas sim, ele te oferece uma caixa com diversas ferramentas, e o autor como um artífice, lembramo-nos de Bilac em profissão de fé;

‘’Torce, aprimora, alteia lima a frase; ‘’

Lendo uns artigos do Maiakovski naquele livro Debates Literatura o qual Boris Schnaiderman traduziu um artigo ‘’Como fazer versos’’ onde o russo relata que escrevia o mesmo verso 70 vezes, até alcançar um verso plausível para leitura e ouvido. Anderson Braga Horta no livro “Criadores de Mantras” argumenta a questão de quem reúne os materiais da construção do poema, quem acasala os vocábulos, potencializando mais a questão da função do poema no homem, lançando a questão pra Heidegger (assim como Hegel, Nietzsche e Merleau-Ponty) quando nos surpreende com o que até então era pensado da poesia. O filósofo alemão estabelece e demonstra-nos que a poesia, ao contrário do que a Tradição da Filosofia apontava, como, por exemplo, como um sonho, um devaneio, dizer reduzido ao sentimento ou uma inspiração divina, é essência da linguagem O Poema está aberto para experimentos, o interessante é buscarmos futicar nesta caixa com diversas ferramentas e experimentar, sentir mais o verso, a palavra, com suas texturas e matizes. Thiago do Mello foi humilde e simples quando escreveu no Campo de Milagres.
‘’ Faço o poema com a mesma


Ciência e delicadeza

Com que, mãos adolescentes,
E a imaginação nas nuvens,
Fazia meu papagaio. ’’
E quais são os seu poetas/escritores  favoritos?
Estou numa relação colorida com os surrealistas ibero-americanos, peruanos Oquendo de Amat, Cesar Moro, Cesar Vallejo, Javier Heraud, os argentinos Aldo Pellegrino, Olivero Girondo - Lezama Lima, Emilia Bernal e Guillen em Cuba, Alfredo Ferreiro no Uruguay, Huidobro e Rokha no Chile, a turma da França, Hans, Breton, Artaud, Peret, Soupault, Apollinaire, e Jorge de Lima e Murilo Mendes, estou em petição de casamento. Cabral de Melo Neto e meu conterrâneo Drummond já são entidades espirituais para mim. Estou lendo bastante umas uruguais como Ida Vitale, Amanda Berrenguer.


Leio e releio muito Blanca Varela, Olga Orozco, Pizarnik Gioconda Belli, Maura Lopes Cançado, Adalgina Nery. A lista de favoritos é extensa, sou leitor assíduo, deixo uma reticencia porque é infinito uai...

Escrever já deu ou te da grana?
Então, o lance é o seguinte, estudei em escola publica, não nasci com a costa quente, meu pai é analfabeto ex-produtor rural e mamãe foi funcionaria publica , quando eu peguei estrada só com uma mochila, fui aprendendo meio que por necessidade artesanato, todo este cotidiano de rua e viagens, se mistura com leituras de poemas, etc e tal, quando fiz o primeiro zine, Apologia Poética, ele salvou - me em várias situações de penúria, perrengues mesmo, pagou almoço, pagou passagem, pagou alucinações, aí lá em 2013 , quando saiu A Cachoeira do Poema Na Fazenda do Seu Astral , autofinanciamento, como tem sido até hoje as remessas que adquiro, vem aparecendo oportunidades de valorização (mesas, exposições, oficinas), consequentemente, vem à busca de mais conteúdo, por isso de sempre estar lendo e relendo, o SESC paga bem, enrola mais paga. E algumas oficinas e mesas. Ontem li o Safra Quebrada do SalomãoSousa ele diz num dos poemas:

'' o máximo que um poema já causou foi briga em família.
se empenhe n'alguma coisa de futuro!
é a utilidade da coisa inútil.”.

Como foi falar seus versos para as crianças do colégio Equipe? Creio que tenha sido muito mais intenso do que declamar para poetas...

Então, o poema quando toma ação de deslocamento, do ir, de sair daquele nicho até então desgastado, ele obtêm forças surreais. La no Colégio Equipe foi uma experiência impar, a carga energética que um livro carrega é enorme, disto ressalto o tratamento cirúrgico pra lançar - se uma obra no mundo. Os adolescentes do colégio já estavam lendo A Cachoeira do Poema durante o decorrer do ano nas aulas de literatura da Suzane, professora que produz métodos bem nutritivos de ensino e imersão literária, a começar pela escolha de escritores da cidade (Ponte Nova) para conduzir as aulas.

Quando cheguei ao colégio eles já me conheciam naquela partícula livro, foi bacana o bate papo, despojado, todos nós participando né. Fiz amigos (as). Poema é um trem fantástico viu. A real foram eles que me deram aula ali.

Se alguém xerocar “A Cachoeira do Poemana Fazenda do Seu Astral” e passar adiante, isso iria te incomodar?
Tem todo este processo de autoria, plágios, imagem, inscrições, registros, mas te dizer, o Poema, com toda sua carga nuclear toma conta do assunto. 

Se você morresse hoje o que faria amanha?
Já estaria morto. Deixa eu quieto  me decompondo, adubando.

E os projetos futuros? tem Algum em mente?
Então, to fazendo levantamentos de poesia sonora da década de 60 e 70, lendo gerações Latino-Americanas de poetas, pesquisando antologias de períodos em diversos países, lendo muitas mulheres, muitos suicidas, exilados, mártires, e tem fertilizado bastante meu terreno criativo, despertado imagens, atentando - me para novas expressões e texturas do verso, ritmo, som, coloração, e continuo vendendo e rifando meu livro, que já está na nona tiragem, autofinanciado mesmo, na luta, rsrsrs, tem uma material novo aí no prelo, só não está definido quem o editará, tem duas propostas uma da capital fluminense outra paulistana, esta maturando, mais vai. A oficina de encadernação, pergaminho e fanzine esta sendo proposta, destinada a adolescentes e jovens, tem atividades agendadas outras aguardando respostas. Tem publicações em jornais e sites pela frente. Resultados de concursos. Também porque vou pastando em qualquer pasto, digital, urbano, rural, impresso, artesanal. Até então retornei pra Minas, e isto é muito confortável pra instalar outras coisas em mente, alem do Ser em Minas.



Indique um Sarau que agente tem que conhecer:
Apesar de eu ter trombado controvérsias nestas atividades que hoje em dia estão na moda, ao mesmo tempo em que não se tem uma funcionalidade poética,  pergunta alguém qual poema ela lembra, que a instigou, causou algo, a ponto de lembrar, raro, mas é legal ver que acontecem, às vezes são megalomaníacos, outras pontos de encontro e troca e soma, outras exercício de garganta, exercício de versejar, exercício de expressarem-se, outras é festinha cult. Aprendi bastante com a galera dos Maloqueiristas em SP, como também com outras galeras por aí. Enfim entrem com respeito dentro da palavra Sarau.

Indique um poeta, que precisamos entrevistar:
Indicaria o Murilo Mendes, mas bota fé em Marcelo Reis, acha ele aí no Rio e mande - o um abraço.

deixe um recado para seus fãs, e não complique essa palavra essa palavra desgastada, pois sou seu amigo e também fã e sei que muitos outros são...
Bóra continuar futicando esta palavra que tem muita radioatividade que é o Poema.

...um outro recado para os que não gostam do seu trabalho...
Que continuem lendo e relendo outras matérias, poetas homens e mulheres e depois me indica estas leituras.

...e um para os que ainda não conhecem o seu trabalho...
Se tiver estomago e um grau de desvio mental, e gostar de coisa fútil, de ''viagem'', convido a fazer parte do que tenho escrito.


Deixei um poema seu para nossos leitores?
DE IMPLOSÃO ESTRELAR IRIDESCENTE NA PUPA
  certas ocasiões
ocasionando queimaduras e irritações na pele da gente
que só depois  se sente o alívio de um assopro.

É a cálida calma da taturana caminhando na palma  da mão.
ânimo nestes dias
deixam as  artérias como  fios de alta tensão desencapados.

Quando demolem meu teto com chutes e tapas
nuvens carregadas chegam para  ensinar - me  a relampejar.

Quando o mundo,
ferro de martelo e de  marreta, despenca no pé do meu verbo caminhar
vejo - me  entre o rosnado de gatas siamesas na laje
e o rompimento das comportas e adutoras da usina hidrelétrica.

Mas
a tranquilidade do besouro pardo que vinca
o estresse acinzentado e o trânsito da rotina
torce contorce a carótida deste barulho baço
que nos envolve 
 como cidade
como aço
polvo tentáculo
  como abraço.

 massagens aiurvédicas ao invés de socos arranhões e pontapés 
no reboco da quitinete do corpo
(este manicômio que acolhe anjo)

Você me deu muitas respostas, tem alguma pergunta pra mim?
Então Tiago,

Nos conhecemos pelas Flip de 2010 ou 2011 se não minha memória RAM não falhe, então, você tem trabalhos em discos, áudios poemas, fanzine, acho uma marca originalíssima sua, diz mais um pouco aí deste trajeto de publicações, sequencia e datas, nomes. Força aí.

Sempre fiz uns trampos mesmo antes dessa era dos pcs, no inicio do século 21 já tinha uma k7 com o nome "A volta do padeiro cearense" e um zine feito a mão com o nome "Fidel Castro Alves".

Depois veio o Cd "A Música que os dadaístas ouvem" em 2005, e fui fazendo um trampo atras do outro por ai vai, sem parar, sem parar e sem parar. Esse ano sai mais alguma coisa no ramo de musica noise experimental, mas isso é outro papo.


(*)Nem todos os verbetes da wikipedia são irrelevantes, apenas os que são feito por puro ego.






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